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Diario de Pernambuco - PE 14/05/2010 - 11:13 |
De vítimas resignadas à lutadores. O estudo da história da escravidão negra nas Américas vem sendo redefinido nos últimos anos, aprofundando aspectos que antes eram deixados nos rodapés do livros. Em 1809, por exemplo, a Bahia viu a revolta dos escravos nagôs e haussás, que não tinham a intenção de fugir para criar quilombos, mas sim de assumir o governo baiano. Os haussás, negros que haviam sido convertidos ao islamismo na África, organizaram a revolta trocando bilhetes em árabe, numa época em que até mesmo muitos governantes não eram alfabetizados. É essa parte da história negra, a de luta e resistência, que a exposição didática Para que não esqueçamos: o triunfo da escravidão quer resgatar e divulgar. A mostra entra em cartaz a partir de hoje na Galeria Massangana, em Casa Forte, e segue até 12 de junho.
Organizada em 2001 pelo Centro Schomburg de Pesquisa da Cultura Negra, sediado em Nova York, a mostra conta com 32 painéis com ilustrações e textos bilíngues, em inglês e português. Dividido em nove temas, os painéis oferecem informações sobre aspectos culturais, econômicos e sociais da África dos séculos 18 e 19 e os processos de adaptação que os africanos sofreram ao chegar nas Américas. A curadoria foi realizada pelo historiador norte-americano Howard Dodson, um dos diretores do projeto da Unesco a Rota dos escravos, do qual a exposição faz parte. Os painéis chegaram ao Brasil em 2008 e já foram expostos em Salvador e no interior baiano. No Recife, a abertura da exposição foi precedida pelo seminário Escravidão no Atlântico Sul e a contribuição africana no processo civilizador brasileiro, que se encerra hoje.
Para uma das coordenadoras da mostra no Recife, a pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) Rosalira Oliveira, a exposição é importante para desmistificar o papel do escravo negro no Brasil. "Nas escolas, as crianças negras precisam ter bons exemplos. Como uma criança negra vai querer conhecer seu passado se ela só conhece a parte da história quetrata seus antepassados como mera mercadoria?", questiona. "Quando se fala da contribuição deles para a construção da sociedade brasileira, o foco é no aspecto folclórico. A capoeira, o maracatu. Mas houve uma significativa participação nos aspectos intelectuais e políticos", ressalta a pesquisadora. Como exemplo, ela lembra do jornal pernambucano abolicionista O homem, liderado por ex-escravos negros, e as várias revoltas de escravos no Brasil. "Em algumas etnias africanas, a sucessão do trono não se dava por hereditariedade, mas numa disputa entre as principais lideranças. Era um sistema mais moderno do que existia no Brasil da época", reforça o pesquisador Carlos Augusto Sant'anna, também coordenador da mostra.
Por uma iniciativa da Unesco, todo o conteúdo da exposição está disponível em slides na internet, no site da Biblioteca Pública de Nova York (
http://digital.nypl.org/lwf/flash.html).