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O Povo - CE O Povo - CE
08/04/2010 - 11:46

Côca Torquato da pré-história às telas
A arte escondida de um povo esquecido é foco de estudos, pesquisa e da produção artística da artista plástica Côca Torquato

André Bloc

Com Itaquatiara, a artista plástica cearense Côca Torquato retoma as exposições individuais
Bem antes de o Ceará ser chamado de Ceará, do Nordeste ser conhecido por Nordeste ou do Brasil ser batizado como Brasil pelos portugueses, já se fazia arte nos territórios americanos.

Bem antes de existirem telas, existiam paredes, pedra, terra. Antes dos pinceis, dedos, mãos, galhos. Anteriormente aos livros de História e da colonização europeia, o povo originalmente brasileiro já tinha sua história e já a havia imprimido nas paredes de grutas escondidas. Muito mais do que 500 anos de colonização portuguesa, as paredes remontam a 50 mil anos na pré-história.

A arte escondida de um povo esquecido é foco de estudos, pesquisa e da produção artística da artista plástica Côca Torquato. Na exposição Itaquatiara, que tem sua abertura hoje no hall da biblioteca da Unifor, a artista plástica cearense mostra sua interpretação própria da arte rupestre & tão conhecida e estudada quando vista dentro das cavernas da Europa, mas esquecida quando proveniente da pré-história ameríndia. No total, Côca traz 40aquarelas sobre papel versando sobre a arte milenar que a artista pesquisa e estuda há mais de três anos. ``A arte pode ser vista na vida das pessoas sem que elas se apercebam. Desde utensílios e vestimenta, até a documentação nas paredes & tudo isso é expressão artística``, disse Côca Torquato.

Além de ser o título da exposição, Itaquatiara é uma palavra de origem indígena, significando ``pedra pintada`` & uma alusão direta ao que é encontrado em grutas como as do Parque Nacional da Capivara (PI), do sertão do Seridó (RN) e em territórios cearenses como Ibiapaba, Itapipoca, Santana do Acaraú e Mulungu. ``No sertão nordestino, onde a natureza é particularmente hostil à ocupação humana, desenvolveu-se uma arte rupestre pré-histórica das mais ricas e expressivas do mundo``, destaca Côca, reclamando da falta de conhecimento do povo sobre as relíquias arqueológicas nordestinas, como as presentes no Parque Nacional Serra da Capivara & área com a maior concentração de sítios pré-históricos da América e nomeado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

Quem trouxe sua ``aprovação e benção`` para a obra de Côca Torquato foi o escritor paraibano Ariano Suassuna, idealizador do Movimento Armorial, que orienta a produção da pintora e ceramista. De acordo com o texto de apresentação escrito pelo autor, ``Socorro Torquato realiza uma arte de vanguarda a partir de nosso passado mais remoto, demonstrando mais uma vez que, em arte, não existe progresso, e sim mudanças e variações``.

Nascida Maria do Socorro em Parambu, na região do Inhamuns (CE), como artista adotou o apelido carinhoso que a família a deu & Côca. Desde os primeiros passos, a única coisa que relaxava a criança irrequieta era o desenho, recurso usado pela mãe para ter ``um momento de descanso``, de acordo com a própria ex-criança irrequieta. Depois de verter para a estamparia, casou-se e formou família com o poeta Virgílio Maia, ao lado de quem desenvolveu sua arte como ceramista e pintora, com os dois vertendo aos princípios estéticos do Movimento Armorial.

Apesar de sempre produzir, há quase seis anos Côca não expunha suas obras. Absorvida pelas pesquisas e estudos, só agora, em 2010, a pintora e ceramista traz aos olhos do público a sua pintura & ao mesmo tempo contemporânea, rupestre, ameríndia, pré-histórica, erudita e popular.

Serviço

Iitaquatiara - exposição individual de Côca Torquato. Coquetel de abertura hoje, das 19 às 22 horas, no Hall da biblioteca da Universidade de Fortaleza & Unifor (avenida Washington Soares,1321 & Edson Queiroz). Visitação a partir de sexta-feira, dia 9 de abril, até o dia 2 de maio. Horários: Segunda a sexta-feira & das 8 às 22 horas. Sábados & 8 às 13 horas.

Emais

- O Movimento Armorial, idealizado pelo escritor paraibano Ariano Suassuna, tenta trazer as raízes populares à arte dita erudita. ``Ele impõe essa bandeira do resgate popular das raízes negras, indígenas e europeias (mouriscas e judaicas)``, explica Côca.

- A maioria dos títulos das obras expostas de Côca Torquato vem diretamente dos poemas de seu marido, Vírgilio Maia.

- Além de exposições em diversas cidades brasileiras, como Fortaleza, Recife e Brasília, em 2003 Côca expôs em Lisboa e no Porto (Portugal), além de mostrar durante três meses o seu trabalho Estandartes das Tribos de Israel no Maison de l-Amerique Látine, em Paris, França.

 
 
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